O que é normal? Entre o naturalismo e as plataformas biomédicas

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Julia Bezerra Alcantara
Rodrigo Augusto Rosa

Resumo

Este trabalho busca analisar criticamente a aplicação do modelo naturalista da saúde,


especialmente a Teoria Bioestatística da Saúde (TBS) de Christopher Boorse, ao campo das


psicopatologias. Defendendo que saúde é o funcionamento típico das partes do organismo segundo


padrões estatísticos da espécie, Boorse propõe uma definição objetiva e livre de valores, que tem


influenciado os critérios diagnósticos contemporâneos. No entanto, ao considerar normalidade e


disfunção como dados naturais, o modelo desconsidera fundamentos clínicos, tecnológicos e sociais na


construção do diagnóstico psiquiátrico. A partir disso, confronta-se a TBS com o modelo teórico


proposto por Keating e Cambrosio, que descrevem a medicina como um estilo de prática moldado por


plataformas biomédicas, arranjos técnicos e discursivos que produzem e estabilizam categorias como


“normal” e “patológico”. Com base em revisão teórica e análise conceitual, conclui-se que, no


contexto da psiquiatria, os critérios de disfunção não são empiricamente dados, mas performados por


práticas normativas e tecnológicas. O estudo contribui para o debate filosófico sobre a saúde mental ao


evidenciar os limites epistemológicos do naturalismo e enfatizar a necessidade de modelos que


reconheçam a importância sociotécnica e histórica na definição das psicopatologias.

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